A Magia das Histórias

A Magia das Histórias

Contadores de histórias e sua importância para o imaginário

A compreensão do que é história para crianças e adultos, hoje, parece estar diretamente vinculada à ideia de filmes de animação para o público infantil. De fato, muitos contos e histórias populares e tradicionais podem ser garimpados nesses desenhos. Por trás da trajetória de um personagem, existe uma estrutura mítica, arquetípica. No entanto, a riqueza imagética e simbólica que a tradição oral propicia em comparação a uma história filmada é maior e de fundamental importância para o desenvolvimento do imaginário.

Gilbert Durand alertou a sociedade, na década de 90, sobre os efeitos perversos do vídeo. Para tanto, apoiou-se em suas próprias construções conceituais sobre o imaginário, que é descrito por ele como um museu onde estão todas as imagens produzidas pelo humano. Para esse lugar ser mantido vivo, é necessário alimentá-lo, nutri-lo. Se, antes da Era Moderna, cabia às religiões conservar regimes simbólicos e correntes míticas (responsáveis por manterem vivo o imaginário), atualmente essa função é atribuída às “belas artes para as elites e a imprensa, a publicidade, as novelas, os desenhos, a fotografia, a televisão e o cinema para o público em geral.”¹ Assim, Durand observou e descreveu os efeitos que as novas tecnologias traziam para o imaginário na sociedade da imagem que o mundo se tornara; alertou também sobre a fantasia ser abafada por uma civilização com sobre-excitação e inflação de todo tipo de imagens. Assim, para condensar imagens na alma humana, é necessário fazer o caminho contrário: abandonar o vídeo e as imagens visuais de alta definição para mergulhar nas imagens interiores, que só a contemplação da natureza (terra, ar, água e fogo) e da arte podem desencadear.

O potencial que a contação de histórias traz para o desenvolvimento e preservação do imaginário é imenso. “Contamos histórias para tentar explicar o mundo, olho no olho, através da voz e dos gestos. Estamos cada vez mais isolados pela vida urbana e pela tecnologia, mas a contação dá um profundo senso de união, de pertencer a um grupo, de viver no coletivo. O resgate disso tudo é o benefício da narrativa”², define Maísa Guapyassú da Casa do Contador de Histórias. As narrativas têm, portanto, o poder de condensar imagens na alma humana. Manter e apoiar o ofício de contador de histórias é apostar na harmonia que surge, ao mesmo tempo, entre o aspecto diurno do ser – identificado com o pensamento abstrato e relacional– com o aspecto noturno – matriarcal, que sonha e que se nutre numa relação intimista com a vida. Contar histórias é abordar o sonho, o subjetivo, o fantástico, os arquétipos, a memória inconsciente da humanidade. Contando e ouvindo histórias, nutrimos a imaginação que nos é tão necessária para trazer equilíbrio à vida humana. Por isso, é sempre hora de contarmos e de ouvirmos mais histórias…

Referências:

¹ARAÚJO, Alberto Filipe; TEIXEIRA, Maria Cecília Sanchez.  Gilbert Durand e a pedagogia do imaginário. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 44, n. 4, p. 7-13, out./dez. 2009

²Blog Estante Virtual – disponível em http://blog.estantevirtual.com.br/2011/03/18/o-mundo-encantado-dos-contadores-de-historias/ –

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